quinta-feira, 24 de julho de 2008

Discurso de formatura, Licenciatura em Física 2008.1, por Rafael Alves



"Boa noite, senhoras e senhores aqui presentes, diretor do CCEN e demais integrantes da mesa.

Gostaríamos de relembrar alguns aspectos marcantes desses anos de graduação. Já no primeiro período, tivemos uma amostra do que seria fazer Física na UFPE. As fenomenais aulas do professor Marcelo Gomes na disciplina de Elementos de Física nas quais ele apresentou de modo simples, questões não triviais, como – por exemplo – calcular qual a maior altura que uma montanha pode possuir no planeta terra, como os antigos calcularam o raio da terra, usando apenas geometria... Explicando também alguns dos mais belos experimentos da física, como a experiência de Millikan. Essas abordagens nos levaram a romper definitivamente com as idéias que um aluno do ensino médio possui a respeito da Física. Ele nos levou a perceber a Física muito além de bloquinhos escorregando em planos inclinados.

Para completar as boas-vindas ao espetacular mundo da ciência, tivemos o professor Getúlio Bulhões que nos desafiou a não ser um aluno L1, L2, Ln, siglas que acompanham as disciplinas da licenciatura e muitas vezes são sinônimo de inferioridade e que nos rotulam como aluno de segunda classe. Mas quero que fique claro, o problema não é a sigla, mas a mentalidade daqueles que estipulam o nível a ser dados nesses cursos. A você Getúlio nosso muito obrigado por nos contaminar com a idéia de que podemos ser muito mais do que alunos L’s, mas sim verdadeiros físicos. Graças a você, que ousou ministrar Geometria Analítica 1 em um curso L1, posso olhar no rosto dos licenciados que aqui estão e ver profissionais capacitados a exercer a docência, mas também a não ter abortada a sua carreira de físicos-pesquisadores. Porque é isso o que um licenciado em Física é: um físico com todos os seus atributos, e ainda por cima com a nobre função de transmitir os conhecimentos de Física para um aluno de Ensino médio.

Aprendemos também com o professor Antenor, de Química LF2, a valorizar livros importantes para a formação básica de um físico. Ele fazia questão de nos aconselhar a respeito do Mahan.

Ao longo da graduação, principalmente a partir do 5º período, aprendemos as maiores lições que o curso de Física nos proporcionou, lições essas que não são a extremização da ação, a resolução da equação de Schrodinger e nem mesmo a tão importante resolução do oscilador harmônico nas suas mais diversas formas. As mais valiosas lições que tivemos foram a união, companheirismo e solidariedade. Aprendidas no decorrer de vários finais de semanas, feriados, madrugadas e demais momentos vivenciados a base de muitos biscoitos trelosos, fazendo as listas e estudando para as provas. Tudo isso nos levou a formar uma verdadeira família e não apenas uma turma. Foi esse espírito de família que nos levou a ajudar Sérgio a voltar de Taiwan para poder concluir seu curso, mas é uma pena que ainda faltou 25h para concluir sua carga-horária e, assim ele não pôde se formar conosco.

MAS... nem tudo foram flores. É importante ressaltar que além das dificuldades naturais existentes no curso de Física, a licenciatura ainda sofre com o descaso de grande parte dos professores do Departamento. Muitos não têm interesse de lecionar na licenciatura e usam as mais diversas desculpas para justificar isso. Dentre elas, a mais comum é que dar aula numa turma noturna irá prejudicar o seu rendimento como pesquisador, pois no outro dia pela manhã o “professor” terá que estar em seu laboratório. Acreditamos que é de fundamental importância mudar essa mentalidade, porque dar aula em um curso noturno não é prejudicar seu desempenho como pesquisador, mas investir em uma geração de novos professores que terão a missão de ajudar a nascer nos alunos de Ensino Médio novos pesquisadores.

Ora, se tivermos bons Físicos como professores de Ensino Médio com certeza poderemos transformar essa sociedade de burocratas em uma sociedade de cientistas. Físicos-professores terão condições de mostrar aos alunos de Ensino Médio que tanto a Física como as demais ciências não se resumem a fórmulas matemáticas que aparentam não dizer nada, ao contrário, a ciência nos permite desvendar alguns dos mistérios escondidos pela natureza.

Todos nós nos orgulhamos muito de ter feito um curso 5 estrelas num departamento nível 7 Capes, onde somos exigidos a sermos alunos nota 1000. Porém, a busca por todos esses índices impede que o departamento seja nota 10 em suas maneiras de avaliar os alunos, porque - às vezes - se preocupa muito mais com o número do que com o aluno em si.

Mas, não queremos ser injustos com aqueles professores que são comprometidos com a educação, independentemente do curso ser noturno ou diurno. Dentre eles, gostaríamos de expressar nossa gratidão aos professores homenageados nesta noite e outros que apesar de não estarem aqui serão sempre professores homenageados por nós, uma vez que devemos a eles parte importante de nossa formação, como os professores Marcílio e Brady.

Julgamos importante também honrar àqueles que foram nossas primeiras referência em Física: nossos professores do Ensino Médio. Acredito que todos nós temos algum nome que gostaríamos de agradecer, por isso agradeço aqui ao meu professor Ivan Santos, como se estivesse homenageando a cada professor do Ensino Médio que colaborou para a formação de cada concluinte que aqui está.

Agradecemos também aos funcionários Ary e Paula que tantos nos ajudaram em nosso curso.

Além disso, nossa maior gratidão é para Deus que nos ajudou nesta difícil caminhada e à nossa família que sempre nos apoiou.

Enfim, por tudo isso, queremos deixar nossos parabéns a todos os formandos, pois independentemente da média geral de cada um, todos nós somos vencedores e verdadeiros alunos nota 10!"

domingo, 15 de junho de 2008

Supostamente Conhecido

Acho estranho a situação quando se anda pelo mundo afora e então se encontra um camarada, supostamente conhecido, de óculos escuros. Primeiro não tem nem certeza se é a pessoa que você acha que é; depois, como fica sua cara se você falar e ele nem der atenção? Quer dizer, você sequer sabe se o camarada está olhando na sua direção...

Agora a novidade é o mp3 (4, 5, ...): a evolução do antigo e quase não funcional "Walk-Man*", digo que era não funcional porque nunca consegui fazer aquilo funcionar direito, tanto com as rádios quanto com a k7, rsrsrs - mas isto é um julgo de valor, é pessoal.

O cara está ali andando com o seu sonzinho no ouvido e você vê o camarada e grita de felicidade "Fulano de tal" e ele segue, como se nada tivesse acontecido, e nada aconteceu mesmo (rsrs). Complicado.

E ai quando eu vejo alguém de óculos escuros eu falo ou não falo no meio da rua? Eis a questão. Fico encarando e, se o cara não me (re)conheça, deve achar, caso esteja olhando em minha direção, que devo ter tendências homossexuais, quando na verdade a idéia é que sempre é bom (re)ver amigos antigos.

Alguém vai caminhar à tardinha e pensa: "porque não levar meu walk-man evoluído?" Depois acaba ainda protegendo seus olhos do sol quente, para quê ele comprou os óculos, afinal? Aí acabou! O cara correndo lentinho de óculos escuros e o ouvido ocupado: acho que não vai querer que ninguém interrompa seu passeio, ou seu esporte.
Me pergunto o que mais vai colaborar para que os seres humanos acabem se tornando, de fato, um gás de partículas não-interagentes...
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* Novidade pra mim: Walkman® é uma marca registrada e pertence à Sony Corporation. (fonte: wikipedia). O certo, então, é dizer: "tocadores de áudio".

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O mundo assombrado por buracos negros

Houve uma época da humanidade em que as pessoas acreditavam em bruxas e feitiçaria. Justamente por crerem tanto nas lendas dessas mulheres, elas foram acusadas de hereges e queimaram nas fogueiras da inquisição. As pessoas também já chegaram a acreditar em dragões, em magia, no continente perdido da Atlântida e na cura pelo poder do pensamento. O mais incrível de tudo é que esta era da humanidade ainda não terminou e não tem previsão para terminar. Somos escravos de nossas crenças e desejos mais íntimos. O que seria dos escritores de ficção científica sem os ETs e dos livros de fantasia sem os duendes, magos e suas varinhas de condão? Este tipo de coisa não apresenta grandes problemas para humanidade quando existem em seu domínio apropriado de fantasia e potenciais inalcançáveis. Entretanto, quando fantasias começam a tornar-se crenças falaciosas por pessoas sem discernimento crítico da realidade, é necessário tomarmos uma posição diante de tal pseudociência.
Não é preciso irmos muito longe para notarmos que o mundo anda assombrado por demônios, título de um famoso livro do astrônomo Carl Sagan. Basta dar uma olhada no YouTube para vermos o que a criatividade humana é capaz de criar com computação gráfica e uma boa dose de pseudociência. Pois é, pessoal, nossos dias estão contados. A Terra será engolida por um buraco negro que será criado no maior acelerador de partículas do mundo, o LHC (Large Hadron Collider), em apenas poucos segundos... E agora, quem poderá nos ajudar?! A comunidade científica, é claro. Afinal, quem é mais gabaritado para destruir os monstros construidos com suas próprias ferramentas? Agora, se depender da mídia sensacionalista, estamos ferrados... Portanto, vamos tentar exercer uma interferência construtiva sobre esse assunto tão "Nostradâmico".
Para aqueles que não ouviram o boato, tem gente dizendo que um mundo vai acabar com um buraco negro engolindo a Terra. Este monstro gravitacional deve ser criado quando o LHC começar a funcionar. Por mais maluco que este boato possa parecer, ele tem um pequeno fundamento de verdade que, entretanto, foi mal interpretado por algumas pessoas e acabou se tornando mais um exemplo de argumento pseudocientífico. Pretendo desmistificar esse assunto com algumas informações científicas relevantes sobre o assunto.

1. Grandes Dimensões Extras. Primeiramente, a teoria que prediz a criação de mini buracos negros é uma extensão do modelo padrão one admite-se a existência de grandes dimensões extras (Large Extra Dimensions). A existência dessas dimensões extras permite que a gravidade seja mais forte em distâncias pequenas, consequência do caráter geométrico da gravidade. Isso faz com que o raio do horizonte de eventos de um buraco negro aumente e, como conseqüência, a massa crítica de formação diminua, permitindo que a acumulação de partículas elementares num pequeno volume do espaço formem um buraco negro. O que interessa de toda essa discussão é que precisamos dessas grandes dimensões extras para criação de mini buracos negros e estas não passam apenas de hipóteses não confirmadas por experimento algum até hoje. Outro problema, que também é um problema de teoria de cordas, é o do ajuste dos parâmetros de tamanho e forma das dimensões extras. Estes não surgem diretamente da teoria, mas são parâmetros livres, assim como as massas e cargas do modelo padrão. Portanto, existe um ajuste fino desses parâmetros que permite a formação dos buracos negros na escala de energia do LHC
e, caso não sejam observados lá, podemos simplesmente reajustar as constantes para aumentar essa energia. Esse grau de arbitrariedade põe em cheque a validade desse tipo de teoria.

2. Radiação Hawking. Na década de 70, Hawking mostrou num belo artigo que num regime semi-clássico buracos negros devem emitir radiação térmica (i.e. aquela de um corpo negro) com temperatura inversamente proporcional ao raio do buraco negro. Este resultado foi demonstrado por vários outros métodos diferentes do usado por Hawking e é uma das bases seminais da teoria quântica de campos em espaços curvos. Este resultado, apesar de não haver confirmação experimental, é uma conseqüência da junção de teoria quântica de campos com a relatividade geral e é amplamente aceito como verdadeiro na comunidade de gravitação quântica. Como conseqüência da conservação da energia, Hawking mostrou que esses buracos negros devem diminuir de tamanho até desaparecerem num tempo finito, um processo chamado de evaporação de buracos negros. Este tempo é da ordem de 10^-23 segundos para um buraco negro com diâmetro de 10^-18 metros. Assim, mesmo que buracos negros sejam criados no LHC, eles devem evaporar antes mesmo de alcançarem o detector! A única coisa detectável seriam os produtos desse decaimento. Pode-se questionar que a medida que o buraco negro engole matéria ele deve aumentar e prolongar seu tempo de vida. Entretanto, um buraco negro com uma seção de espalhamento de 10^-36 metros quadrados atinge em média 1 próton a cada 200 km. Dado que os prótons no LHC serão acelerados a velocidades muito próximas a da luz, este buraco negro seria criado em média com velocidade muito maior que a velocidade de escape da Terra, encontrando poucos prótons em seu caminho em direção aos confins do espaço... Mas, novamente, a taxa de evaporação dos buracos negros é muito mais alta que sua possível taxa de acreção de massa, sendo mais razoável esperar que ele evapore antes mesmo de interagir com a matéria.

3. Raios Cósmicos. Por último, mas não menos importantes, estão os raios cósmicos. A Terra está sendo o tempo todo atingida por partículas, provavelmente prótons, acelerados a velocidades extraordinárias chegando a energias da ordem de 10^19 eV, energia equivalente a produzida por 10 milhões de LHC's. O observatório Pierre Auger, localizado na sudeste da Argentina, foi criado justamente para observar estes raios criados pelo maior acelerador de partículas que o ser humano conhece: o próprio universo observável. É incrível que este fenômeno tenha passado despercebido por tantos anos! Uma descoberta recente do Auger foi a reconstrução da trajetória dos raios cósmicos com intuito de identificar a origem dos mesmos. Os dados sugerem que eles são criados nos objetos celestes chamados de AGNs (Active Galactic Nuclei) cuja origem ainda não está plenamente compreendida. Acredita-se que os AGNs estejam envolvidos com buracos negros, a manifestação gravitacional mais intensa que conhecemos. A grande lição que os raios cósmicos nos dão é que, se fosse para sermos engolidos por um buraco negro formado por colisões de partículas, já devia ter acontecido a alguns bilhões de anos atrás. Afinal, colisões bem mais potentes que as do LHC estão ocorrendo acima de nossas cabeças o tempo todo...

Sem mais delongas, é com muita tristeza que afirmo: é pouco provável que o mundo acabe engolido por um buraco negro no centro da Terra (a multidão lamenta: ahhhh...). Pois é, caros amigos e amigas, não poderemos ver cenas sensacionais como nossas casas sendo sugadas em milésimos de segundo enquanto teóricos defensores das dimensões extras se cumprimentam no seu vôo alucinante em direção ao centro do engolidor de planetas. De fato, seria uma cena bastante interessante, mesmo que mórbida.

É curioso e até mesmo natural que um boato dessas proporções tenha sido disseminado tão rapidamente. Entretanto, é preocupante o fato de que este boato não é recente. Ele surgiu em 1999, no contexto de um outro acelerador de partículas que estava sendo completado. O ceticismo científico é o mesmo desde do surgimento do boato até seu reaparecimento em 2008. Tudo isto é um resultado preocupante do tipo de sociedade da informação que estamos criando, preocupação central do livro de Carl Sagan citado no início do texto. O ceticismo, base da ética científica (ou método científico, como queira), não faz parte da metodologia de pensamento ensinada nas escolas. Estamos vivendo uma era de acesso à informação nunca antes visto e, como é o caso do presente texto, de produção de informação pelos indivíduos. Quantos são os líderes que ainda hoje se consultam com videntes sobre decisões cruciais de governo? Quantas são as pessoas que se entregam a dados falaciosos, a crenças intransigentes e inflexíveis baseadas em dogmas emocionais? Concordo com Sagan quando ele diz que a ciência aparenta ser uma pequena vela acesa no meio da escuridão assombrada por demônios criados pela própria mente humana. Nós, futuros cientistas da nova geração, devemos ter essa preocupação para que a nossa realidade não acabe assombrada por buracos negros da ignorância...

Referências:
Back Reaction - Blog da Sabine Hossenfelder
Site do LHC
Artigo sobre Teoria de Cordas no LHC

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Formatura CCEN - UFPE 2007.2

A pedidos de muitos, hoje aproveito minha vinda aqui no df (departamento de física - UFPE) para postar a corbertura de mais uma formatura dos alunos do CCEN (Centro de Ciências Exatas e da Natureza) especialmente os de física. Não estranhe num feriado nacional eu está na Universidade, afinal eu sou um estudante de física e não sou único aqui no departamento, só aqui na sala do DA (Diretório Acadêmico) tem mais três! Sem falar nas outras salas e laboratórios. E imagine ter aula no dia de hoje, 18h às 20h, pois é tem uma turma que está chegando aqui pra assistir essa aula, sem falar da outra turma que teve aula durante a manhã. Pois é meus caros leitores, considerando a regularidade desses fatos isso só acontece em um departamento de física.
Bom, mas vamos voltar a formatura. Hoje vou apenas postar alguns vídeos, a maioria deles sãos os discursos dos alunos, os quais resumem as experiências de uma vida universitária. Fico devendo algumas fotos, que pretendo fazer um slideshow para postar aqui no blog.


A entrada





Discursos



Aluno de Estatísica






Aluno de Física Bacharelado






Aluno de Física Licenciatura



Enfim, está aqui o discurso de Ricardon, dividido em duas partes por ter mais que dez minutos. Achei melhor não editar, para não tirar a integridade.


Parte 1



Parte 2




Aluno de Química






Aluno de Matemática


sábado, 29 de março de 2008

Busão com Wi-Fi

Imagine tu pegando um ônibus da linha Barro Macacheira - Várzea, saindo da estação do Barro. Tu entras no ônibus, senta, tira da bolsa teu smartphone ou notebook e começa a navegar na internet através da rede Wi-Fi do ônibus... Parece sonho né?

Na verdade ainda é um sonho para os ônibus aqui no Brasil, principalmente os urbanos tipo carne enlatada, sardinha enlatada e afins, a exemplo da linha supracitada, ter essa "graça".
Porém, isso já é realidade para uma linha da empresa Stagecoach que liga Edimburgo à Fife, ambas as cidades na Escócia.

A empresa investiu cerca de 36 mil libras, algo em torno de 125 mil reais, para equipar 38 ônibus com Wi-Fi. Além de atender cerca de 40 mil passageiros por semana, os veículos são rastreados através da infra-estrutura montada. Também sem esse rastreamento não poderia vir não é? Vai que algum louco queira fazer com um desses ônibus uma casa ambulante com internet sem fio.

Um dia chegaremos a esse nível! Enquanto ele não chega, basta sonhar!

Fonte: Info Online